Bispos e grandes Apóstolos do Brasil

Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida SJ (Rio de Janeiro5 de outubro de 1930 — São Paulo27 de agosto de 2006) foi um religioso jesuíta e bispo católico brasileiro. Foi o quarto arcebispo de Mariana.

 


Família

Dom Luciano era filho do Conde Cândido Mendes de Almeida Júnior e Emília de Melo Vieira Mendes de Almeida (segundos Condes Mendes de Almeida); neto do primeiro Conde Mendes de Almeida; bisneto do jurista e senador do Império Cândido Mendes de Almeida; e, por este, trineto de Fernando Mendes de Almeida e tetraneto de João Mendes de Almeida. Também era trineto de Honório Hermeto Carneiro Leão, Marquês de Paraná. Dom Luciano era irmão do acadêmico Cândido Antônio Mendes de Almeida, terceiro Conde Mendes de Almeida e reitor da Universidade Cândido Mendes.

Estudos e vida religiosa

Fez seus primeiros estudos no Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro (1941-1945) e no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo(1946-1950).

Ingressou na Companhia de Jesus no dia 2 de março de 1947. Realizou estudos na Casa de Formação dos Jesuítas em Nova Friburgo (1951-1953) e na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma (1955-1959). Fez seu doutorado em Filosofia na Universidade Gregoriana (1960-1965).

Sua ordenação presbiteral deu-se a 5 de julho de 1958, em Roma. Emitiu seus votos definitivos na Companhia de Jesus no dia 15 de agosto de 1964.

Atividades antes do episcopado

Foi professor de Filosofia (1965-1972); instrutor da terceira provação na Companhia de Jesus (1970-1975); membro da diretoria da Conferência dos Religiosos do Brasil (1974-1975).

Episcopado

Foi nomeado pelo Papa Paulo VI, no dia 25 de fevereiro de 1976, bispo auxiliar de São Paulo e titular de Turris in Proconsulari. Sua ordenação episcopal deu-se a 2 de maio do mesmo ano, pelas mãos do cardeal Dom Paulo Evaristo ArnsOFMDom Clemente José Carlos de Gouvea Isnard OSB e Dom Benedito de Ulhôa Vieira.

Exerceu a função de bispo auxiliar na Arquidiocese de São Paulo e responsável pela Pastoral do Menor no período de 1976 a 1988.

Papa João Paulo II o nomeou arcebispo de Mariana no dia 6 de abril de 1988.

Na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil foi secretário-geral no período de 1979 a 1986, e presidente de 1987 a 1995. Na Cúria Romana foi membro da Comissão Pontifícia Justiça e Paz (1996 – 2000) e membro da Comissão do Secretariado para o Sínodo (1994-1999). Foi vice-presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (1995-1999); em 1997 foi eleito delegado da CNBB à Assembléia Especial do Sínodo dos Bispos para a América por eleição da assembléia da CNBB e confirmado pelo Papa João Paulo II (1997).

Figura de destaque do episcopado brasileiro, atuou na defesa dos direitos humanos e no serviço aos pobres.

Lema: In nomine Jesu (Em nome de Jesus).

Sucessão

Dom Luciano Mendes de Almeida foi o 4º arcebispo de Mariana, sucedeu a Dom Oscar de Oliveira e foi sucedido por Dom Geraldo Lyrio Rocha.

Ordenações episcopais

Dom Luciano foi o principal celebrante da ordenação episcopal dos seguintes bispos:

Dom Luciano foi concelebrante da sagração episcopal de:

Beatificação

Ao se completarem cinco anos de sua morte, Dom Geraldo Lyrio Rocha anunciou o envio à Congregação para as Causas dos Santos do pedido de autorização para dar início ao processo de beatificação de Dom Luciano. O pedido tem o respaldo de mais de 300 bispos reunidos na assembleia geral da CNBB, em maio de 2011.1 No dia 27 de agosto de 2014 será aberto o processo de beatificação, autorizado por aquele dicastério. A partir dessa data, ele passará a ser chamado Servo de Deus.

 
 
 

Paulo Evaristo Arns: o cardeal dos Pobres

 
 
Fatos: 
  • Foi o quinto arcebispo de São Paulo, sendo hoje considerado emérito.

  • Lecionou no Rio de Janeiro e doutourou-se na França.

  • No auge da ditadura, enfrentou os militares e denunciou a tortura .

  • Foi um dos mentores do livro Brasil Nunca Mais.

  • Ao lado da irmã Zilda Arns Neumann, implantou a Pastoral da Criança.

Paulo Evaristo Arns nasceu na localidade de Forquilhinha, lugarejo do município de Criciúma, na ponta extrema do Estado de Santa Catarina, a 14 de setembro de 1921, no sobrado construído por seu pai onde nasceram também quase todos os seus irmãos. Até os 12 anos ele viveu em Forquilhinha, primeiro nessa casa, em cujo andar térreo funcionavam o armazém da comunidade e uma hospedaria administrada por dona Helena Steiner Arns, e, depois, nas outras duas casas igualmente construídas por Gabriel Arns.

Aos treze filhos que Gabriel Arns, descendente de imigrantes alemães, teve com sua mulher Helena, juntaram―Se mais tarde João e Maria Maag, órfãos gaúchos adotados pelo casal. Dessa família saíram dois frades franciscanos e três freiras.Paulo Evaristo era sempre o primeiro aluno de sua turma. Os irmãos Arns formavam um time inteiro de futebol (as meninas também jogavam) no qual Paulo Evaristo era um dos beques.

Dom Paulo saiu de Forquilhinha após seis anos de curso primário para continuar os estudos ingressando na ordem dos franciscanos. Fez Seminário Menor no Paraná e o Seminário Maior, de Filosofia, em Curitiba; e Teologia, em Petrópolis, no Instituto dos Franciscanos. Formou-se em 1947, dois anos depois de sua Ordenação sacerdotal. No mesmo ano viajou para a França, indo estudar Letras na Sorbonne.

De volta ao Brasil, foi professor do Seminário Menor de Agudos, de 1953 a 1955. E depois fundou a Cadeira de Língua e Literatura Francesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Bauru. Dessas duas experiências no interior paulista, D. Paulo seguiu para Petrópolis, onde acumularia quase doze funções — pastor da Igreja do bairro Itamarati, a 5 quilômetros do centro da cidade, cercado por favelas; redator de várias publicações; professor de dois colégios etc. Alí passaria os 10 anos e meio seguintes, embora em 1964 tenha se oferecido para ajudar as tropas do general Olímpio Mourão Filho que se deslocaram de Minas Gerais para o Rio.

Consagrado bispo em 1966 pelo Papa Paulo VI, foi chamado para trabalhar com o cardeal Agnello Rossi na arquidiocese de São Paulo. O cardeal Rossi entregou ao novo bispo a Região Norte de São Paulo, com suas 38 (hoje 55) paróquias. Ali D. Paulo passou quatro anos e meio, até que Paulo VI convocou o cardeal Rossi para prefeito da Sagrada Congregação dos Povos, no Vaticano, e nomeou D. Paulo Evaristo arcebispo de São Paulo.

O cardeal tinha planos para a cidade, antes mesmo de ser escolhido pelo papa. Tanto assim que pouco depois de seu retorno de Roma, lançava a "Operação Periferia", que pretendia criar centros comunitários nos bairros mais afastados de São Paulo, usando para isso 25 por cento de todo o dinheiro arrecadado pelas igrejas.

Em outubro de 1973, indignado com as repetidas violações dos direitos humanos e o desrespeito à integridade de presos políticos e com a indiferença da sociedade civil, decidiu realizar uma Semana dos Direitos Humanos. Imprimiu 150 mil folhetos com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, da Organização das Nações Unidas, da qual o Brasil é signatário e determinou que o texto fosse discutido em todas as paróquias e nas comunidade eclesiais de base.

A resposta não demorou. Um dia depois de ter transmitido uma palestra de D. Paulo sobre o problema dos direitos humanos, a rádio Nove de Julho, de propriedade da Cúria Metropolitana, teve sua licença cassada pelo Governo Federal.

A decisão, que não tinha um fundamento legal específico, já que o Departamento Nacional de Telecomunicações (Dentel) não indicou nenhuma irregularidade que justificasse a atitude, provocou grande reação. Parlamentares da oposição, milhares de católicos e personalidades da sociedade civil protestaram, mas nada adiantou. Os transmissores foram lacrados e a Igreja precisou realizar uma enorme coleta para obter os 700 mil cruzeiros necessários para indenizar os 45 funcionários, muitos deles com mais de 10 anos de casa.

No final de novembro, o próprio cardeal telegrafou ao Senador Eurico Rezende, indagando qual a irregularidade cometida pela rádio. O então líder da Arena no Senado reafirmou o que dissera alguns dias antes, durante debate com o oposicionista Franco Montoro: que o fechamento tinha amparo legal “absoluto e indiscutível". Mas não respondeu à pergunta de D. Paulo.

O episódio foi amplamente noticiado pela imprensa, que chegou a reproduzir afirmações de D. Paulo, atribuindo o fato à ação de "alguma força oculta" de Brasília. Mas nada se falou sobre a campanha em favor dos direitos humanos. D. Paulo chegou mesmo a ir a Roma, em dezembro, para conversar com o papa. Na volta admitiu ter tratado do relacionamento entre a Igreja e Estado e sobre o fechamento da rádio.

Pouco depois de voltar de Roma, D. Paulo fez uma visita ao recém-empossado general Ednardo D'Ávila Mello, comandante do II Exército. Durante mais de uma hora, o cardeal conversou com o general, inaugurando uma série de encontros em que o problema dos presos políticos e as denúncias de torturas se tornariam uma constante. Era 18 de janeiro de 1974 e, no Rio de Janeiro, o general Ernesto Geisel já mantinha contatos com representantes de diversos setores sociais, acenando com a perspectiva de uma liberalização do regime.

Da visita do cardeal a Eduardo, a imprensa registrou apenas o superficial: teria sido uma visita protocolar, para cumprimentá-lo pela posse, já que D. Paulo estava fora de São Paulo na ocasião.

Menos de um mês depois, no dia 7 de fevereiro, uma nota na Folha de S. Paulo mostrava que o cardeal continuava preocupado com a situação dos presos políticos. A notícia dizia que D. Paulo estivera no DOPS, Departamentos de Ordem Política e Social no dia anterior, "procurando inteirar-se da situação de cinco pessoas: a professora secundária Maria Nilde Mascellani, em exercício no ‘Sedes Sapientae’,o líder católico Waldemar Rossi, pertencente à Justiça e Paz e três pertencentes aos meios católicos, que se encontram detidos".

Num escritório do Rio de Janeiro,Dom Paulo conversou com um general da reserva, presidente da Dow Chemical, uma das multinacionais mais poderosas e tido como "o arquiteto da distensão”:Golbery do Couto e Silva, ministro-chefe do Gabinete Civil da presidência.Nesse encontro D. Paulo esteve com o professor Cândido Mendes, da Comissão de Justiça e Paz da CNBB. Foi o primeiro de muitos contatos com Golbery, que parecia ser o interlocutor mais próximo do presidente e também mais empenhado em normalizar as relações com a Igreja.

D.Paulo conversou muitas vezes com Golbery, por telefone e pessoalmente. E numa dessas conversas, acompanhado por uma comissão de familiares de desaparecidos, recebeu a promessa formal de que seria dada uma resposta sobre a situação dos que foram presos pelo aparelho repressivo do Estado e desapareceram. A promessa não foi cumprida e o cardeal não mais procurou Golbery.

Em junho, o presidente Geisel faz um discurso que foi classificado como uma verdadeira pá de cal sobre o projeto distensionista. Em julho, começavam as prisões de alguns elementos ligados à ala jovem do MDB em São Paulo, Bahia, Brasília e Minas Gerais. Prisões que o cardeal comentou dessa forma, no dia 11 de julho de 1975:

É da maior gravidade a prisão de pessoas que estão lutando por uma definição partidária ou pela criação de bases partidárias, pois trata-se de uma luta dentro da legalidade. Essas pessoas estão sendo mantidas incomunicáveis, sem direito à assistência de advogados ou sem ter sequer direito de informar à família sobre a situação dos mesmos. Nunca aceitaremos esse fato,nem como brasileiros, nem como membros da igreja.

No dia 18 de Setembro, o cardeal embarcou para Roma, onde se avistaria novamente com o papa. Pouco antes da viagem recebeu na Cúria a visita de representantes da direção estadual do MDB e declarou:

E preciso que se mantenha a democracia no Brasil. Todo o governo deve refletir a soma de liberdade humana. Considero essencial a participação dos jovens e dos trabalhadores na política e sei quanta coragem e responsabilidade que os homens públicos precisam ter, na luta pelos humildes e pelos trabalhadores."

Ao voltar, havia quase uma centena e meia de presos políticos detidos no DOI-CODI de São Paulo, num gigantesco arrastão desfechado nas primeiras semanas de outubro. Essa passou a ser sua preocupação fundamental. E quando o jornalista Vladimir Herzog apresentou-se no prédio da rua Tomas Carvalhal, no Paraíso, depois de ter sido procurado na noite anterior, por agentes do DOI-CODI, na TV Cultura.

Ele telefonou pessoalmente ao governador do Estado,Paulo Egydio, a pedido do jornalista Mino Carta.

O governador estava em Jales e, por intermédio de sua esposa, entrou em contato com o cardeal, que pediu garantias para os jornalistas presos. Paulo Egydio falou com o coronel Erasmo Dias, mas nada adiantou. Herzog morreu no mesmo dia em que foi detido.

D. Paulo, ao saber do fato, foi ao Palácio dos Bandeirantes, “cobrar do governador." Depois, telefonou ao general Golbery, que foi por ele informado do fato. A participação do cardeal nesses dias tensos é até hoje recordada com emoção, por ele. E está relatada com precisão por Fernando Jordão em seu livro Dossiê Herzog - Prisāo, Tortura e Morte no Brasil. Desse trabalho, são os trechos reproduzidos abaixo:

Já amanhecia, domingo, quando saímos, eu e Fátima, da casa de Clarice. A caminho de casa, procuramos o cardeal, D. Paulo Evaristo Arns, que não conhecíamos pessoalmente. Eram umas seis horas da manhã quando Irmã Lurdes nos atendeu no sobrado do Sumaré, numa sossegada rua sem saída, onde mora D. Paulo. De novo, o choro incontrolável quase nos impedia de falar. D. Paulo já sabia. Acompanhava a situação desde a véspera, à tarde, quando sentira a gravidade dos fatos e percebera que a violência crescia e que era necessário agir. Procurado por Mino Carta, fez contato com o governador Paulo Egydio, que estava no interior. Desse contato surgiu a sugestão para que se procurasse o secretário da Segurança em Santos. Ele estava informado de tudo.

D. Paulo fala baixo e duro, quase entre dentes. Não esconde sua revolta, mas ao mesmo tempo sua impotência, que é a mesma de todos nós: "Não sei se não é a hora de um protesto mais forte. Quem sabe sair pelas ruas, gritar, protestar contra isso tudo. Mas eu não sei..."

O que fazer? Faz algumas semanas que D. Paulo convive com a tragédia da repressão. As famílias de pessoas sequestradas procuram seu escritório, na Cúria, para denunciar, para buscar amparo, para tentar alguma coisa com a Comissão de Justiça e Paz.

Ele nos fala desses casos, procura nos confortar. Sabendo que éramos amigos de Vlado, nos consola, mas, ao mesmo tempo, nos renova as forças, para vencer o desespero e o desalento.

Nos meses seguintes, quando tentávamos descobrir provas que destruíssem a versão de suicídio, ou quando íamos a seu escritório para convidá·lo para atos ligados à memória de Vlado, mais de uma vez a presença de D. Paulo e sua posição firme foram uma fonte de renovação de forças. Especialmente para Clarice, nos momentos em que ela se sentia mais desamparada em sua luta.

D. Paulo foi ao enterro de Vlado na segunda-feira e, logo depois, seguiria para Itaíci, para participar de uma reunião regional dos bispos de São Paulo. E de lá, na terça-feira, o padre Víegas, que era o seu assessor de imprensa me telefonaria no Sindicato, depois de vários recados aflitos para o Cardeal, para dizer que nos tranqüilizássemos: D. Paulo fazia questão de vir pessoalmente para a celebração do Culto Ecumênico que programávamos para sexta-feira e nos dava as instruções para preparar o ato na Catedral.

Num de nossos encontros posteriores, o cardeal contou que dois secretários de Estado, do governo Paulo Egydío, o procuraram na véspera do Culto, para dizer-lhe que desistisse, que cancelasse o ato, porque ―— era o argumento que usavam — um chefe católico não poderia rezar por um suicida: "'Amanhã eu estarei na Catedral , rezando por Vladímir, porque tenho a plena convicção de que ele não se suicídou’ — foi a resposta".

Quatro da tarde. A Catedral está repleta. O corredor central, as laterais, até os altares secundários estão tomados. Muita gente ficou do lado de fora, ocupando as escadarias de entrada e parte da praça. Os diretores do Sindicato e outros companheiros jornalistas estamos todos atentos, observando a movimentação para detetar a tempo qualquer atitude suspeita, qualquer provocação que sabemos que só pode vir da repressão. Sente-se no ar a força daquela manifestação formidável, que teria enchido toda a praça da Sé, não fosse o bloqueio policial...

D. Paulo Evaristo Arns entrou em seguida no altar, acompanhando os dois rabinos que fariam a concelebração do culto, Henry Sobel e Marcelo Rittner, o cantor Paul Novak, da Congregação Israelita, D. Helder Câmara e mais vinte sacerdotes católicos. Sua voz firme e enérgica foi ouvida em todo o templo: "Esta Casa é de Deus e de todos os homens que aceita o caminho da Justiça e da Verdade’. Oito pessoas, emocionadas e quietas, acompanham a recomendação do cardeal, dirá pausadamente 'Purifiquemos o nosso coração de todo o ódio.
Procuremos ser irmãos, que rejeitam toda espécie de terrorismo, venha de onde vier. Observemos um momento de silêncio, para se criar um clima de oração e solidariedade entre os homens por aqueles que Deus amou e ama, neste momento de dor."

A emoção chega a seu ponto mais forte em seguida, com a palavra de D. Paulo. Ele é como um grande ator, com as ínflexões certas as pausas colocadas com precisão. Sua fala emociona, mas ao mesmo tempo incute em cada um o sentido, não de lamentação inerte da morte, mas de compromisso de luta a partir do sacrifício de Vlado. Antes de começar, esperou que os fotógrafos e cinegrafistas completassem seu trabalho e lhes pediu que apagassem as luzes e não estourassem mais os flashes, criando assim um clima mais propício à reflexão. Então, o tom de voz, que era suave e sereno no apelo jornalistas, se altera. Vem mais alto, comovido, contundente e explícito:

"Ninguém toca impunemente no homem, que nasceu do coração de Deus, para ser fonte de amor em favor dos demais homens. Desde primeiras páginas da Biblía Sagrada até a última, Deus faz questão de comunicar constantemente aos homens que é maldito quem mancha suas māos com o sangue de seu irmão. Nem as feras do Apocalipse hão de cantar vitórias diante de um Deus que confiou aos homens sua própria obra de amor. A liberdade —— repito — a liberdade humana nos foi confiada como tarefa fundamental, para preservarmos, todos juntos, a vida do nosso irmão, pela qual somos responsáveis, tanto individual quanto coletivamente."

D. Paulo não usa subterfúgios, nem meias- palavras. A cada passo de sua oração, transparece sua convicção de que Vlado foi morto, Sua voz soa como uma acusação direta: "Não matarás. Quem matar, se entrega a si próprio nas mãos do Senhor da História e não será apenas maldito na memória dos homens, mas também no julgamento de Deus!"

Na Catedral de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns concluía sua oração clamando por Justiça e com as palavraš de compromisso e responsabilidade para a multidão:

"Justiça que possa consubstanciar-se nas leis, mas que tenha sua força no interior de cada homem, disposto a dizer a si mesmo e aos outros: Basta! E hora de se unirem os que ainda querem olhar para os Olhos do irmão e ainda querem ser dignos da luz que desvenda a falsidade. O cardeal estava em Roma e se multiplicavam as prisões em São Paulo. Era o que os organismos de segurança chamavam de "Operaçāo Jacarta", numa referência à capital da Indonésia, onde, anos antes, milhares de pessoas, consideradas comunistas, foram eliminadas numa noite de triste memória.a esperança reside na solidariedade. Aquela solidariedade que é capaz de sacrificar os egoísmos individuais e grupais no altar da Pátria, no altar de um Estado, no altar de uma Cidade. Neste momento, o Deus da esperança nos conclama para a solidariedade e para a luta pacífica, mas persistente e corajosa, em favor de uma geração que terá como símbolo os filhos de Vladimir Herzog, sua esposa e sua māe."

Na semana seguinte, o cardeal distribuiria 100 mil folhetos a todas as paróquias da cidade, pedindo um dia de jejum, na sexta-feira, 14 de novembro. A nota conclamava os católicos "como expansão de penitência, a súplica do povo e dos bispos do Estado a um dia de oração e jejum, pedindo a Deus pela paz e justiça em nossa pátria." O documento, aprovado no encontro de Itaici, estendia o pedido "a nossos irmãos de outras confissões", para que todos, unidos, "em nome do Evangelho de Jesus Cristo, confirmem a posição do secretariado da Comissão Episcopal Regional Sul-1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, de erguer a voz diante da onda de violência oriunda de todas as partes e que se patenteia por atentados à vida, sequestros, assaltos e diante, sobretudo, dos graves acontecimentos que vêm estarrecendo e inquietando a população."

A atitude gerou o protesto de homens como Gustavo Corção, mas marcou um passo adiante da luta da Igreja pelos direitos humanos. E afora essa reação exacerbada de quem enxergava em D. Paulo uma reencarnação do próprio Diabo, não houve maior repercussão, nem mesmo em termos de imprensa.

No dia 30 de novembro, o cardeal completou 30 anos de sacerdócio, um fato comemorado no dia 12 de dezembro. O cardeal estava em Roma e se multiplicavam as prisões em São Paulo. Era o que os organismos de segurança chamavam de "Operaçāo Jacarta", numa referência à capital da Indonésia, onde, anos antes, milhares de pessoas, consideradas comunistas, foram eliminadas numa noite de triste memória com uma missa concelebrada por mais de 300 padres, na catedral da Sé e assistida por quase mil pessoas. Entre os presentes o secretário da Cultura do Governo do Estado, José Mindlin. Poucos dias antes da missa, o cardeal havia procurado a imprensa, para, mais uma vez, tratar do problema de um preso político: o líder camponês Manoel da Conceição, sobre quem, dizia D. Paulo, o próprio papa havia manifestado interesse. Conceição, líder dos camponeses de Pindaré-Mirim, no Araguaia, cumprira cinco anos de prisão, recebera alvará de soltura e ao chegar a São Paulo fora novamente detido. Tinha uma perna mecânica - perdeu o membro depois de ter sido baleado numa disputa de terras — e estava incomunicável.

E no final da missa na Sé, o cardeal falou aos presentes:

Se lhes pudesse pedir algo mais, seria que sempre estivessem de olhos abertos. No momento em que aqui estamos, um padre estrangeiro, que durante 20 anos deu o melhor de si no interior do país, que foi condenado e absolvido, este padre, nesta hora, está sendo embarcado num avião para a França, expulso do Brasil: é o padre Jentel."

Durante dez anos e meio viveu em Petrópolis, trabalhando com o povo dos morros, das favelas, percorrendo vielas, entrando em barracos, cativando crianças e moradores com doces, carinho e sorrisos. Poucos sabem disso, pois na linguagem fria e objetiva da imprensa não há espaço para essas referências, como também não existe lugar para suas lembranças do tempo de criança, quando gostava de brincar no rio que corria pelas terras da pequena propriedade de seu pai, ou das intermináveis conversas ao pé do tacho que cozia a ração para os porcos, povoadas de lendas e assombrações.

D. Paulo fez pós-graduação em Paris, na Sorbonne. Mas não foi ali que acumulou imenso conhecimento do sentimento dos homens, sua fé total na solidariedade, por cima das divergências de credo e de opiniões políticas, sua confiança absoluta no futuro da humanidade, que permitem a esse homem sereno seguir adiante na luta em favor dos direitos humanos, sem perder a tranquilidade, ostentando uma firmeza permanente que levou a Universidade Notre Dame, a maior organização universitária católica dos Estados Unidos, a conceder-lhe o título de doutor honoriscausa numa solenidade presidida pelo próprio presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter.

Em 1996, tendo completado 75 anos, Arns enviou ao Vaticano um pedido de renúncia à Arquidiocese de São Paulo. Em fevereiro de 1997, ao lado de seus cinco bispos auxiliares, divulgou carta de apoio à marcha pela reforma agrária defendida pelo MST, iniciada em São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso.

Em 2005, sofreu um infarto, e se recuperou em sua residência no bairro do Jaçanã, em São Paulo.

Bibliografia:

Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro; CPDOC-FGV; 1930-1983. Paulo Evaristo Arns.

JORDÃO, Fernando. Dossiê Herzog - Prisāo, Tortura e Morte no Brasil. São Paulo: Global, 2005.

MARKUN, Paulo; BITTENCOURT, Getúlio. O Cardeal do Povo. 1979.

SERBIN, Kenneth P. Diálogos na Sombra: Bispos e Militares, tortura e justiça social na ditadura. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

 

Conheça Dom Antônio de Almeida Lustosa, em processo de beatificação

 
À sombra das asas de Deus
 
 
O Papa João Paulo II, no discurso aos Bispos do Brasil, em Fortaleza, aos l0 de julho de l980 falou com veemência do homem de Deus: “Como não evocar aqui em Fortaleza a figura admirável de Dom Antônio de Almeida Lustosa, que repousa nesta Catedral e deixou nesta Diocese a imagem luminosa de um sábio e de um santo”.
Dom Antônio de Almeida Lustosa nasceu em l886 e foi ordenado padre em l912, bispo de Uberaba de (1925-1928), bispo do Corumbá de (1928-1931) e faleceu em l974, com 88 anos de idade, que segundo o Escritor e Médico Vinícius Barros Leal, foi um “homem profundamente de Deus, que se colocou muito além de um religioso comum, com seu comportamento fundamentado na ética, decidido no caminho do bem, repleto de serenidade e equilíbrio, bondade e disciplina, nunca perdendo um só minuto do seu precioso tempo”, tem um recado muito importante e atual, para nós povo de Deus, nos nossos dias.
Viveu sua fé, numa atitude de escuta e contemplação, a partir da Palavra de Deus. Através das visitas pastorais, procurou realizar a vontade de Deus, imitando o Bom Pastor, no maravilhoso dom de sua riqueza interior e convicção permanente, no seu zelo, mansidão e prudência, acompanhada da virtude da caridade, que para ele era transbordante, no convívio com suas ovelhas, na dura realidade vivida por elas na nossa Arquidiocese de Fortaleza.
Na sua atividade de pastor da Igreja de Fortaleza (1941-1963), envolvida, evidentemente, em fervorosas preces e meditações, na nossa realidade do nosso Ceará, castigada e marcada pelo sofrimento das conseqüentes secas, desenvolveu um apostolado prodigioso, nas obras e gestos concretos, dando o melhor de si mesmo, não obstante seu aspecto doentio, oriundo da malária, na austeridade da missão pastoral, nas viagens e desobrigas pela floresta amazônica, na qualidade de bispo da Arquidiocese de Belém do Pará (1931-1941).
Dom Lustosa foi um homem sábio e santo, com toda a sua vida e o que ele produziu através da sua palavra falada e escrita, indo ao encontro do mistério que ela professava, revelado no conhecimento, inspirado nas coisas do alto. A sabedoria de suas palavras e o exemplo de sua vida, na busca da retidão e santidade, tendo sua origem no Filho de Deus, que é a sabedoria encarnada do Pai, com certeza, convenceu e encorajou muitas pessoas a viverem a sua fé.
A Arquidiocese de Fortaleza, tendo a frente o Senhor Arcebispo, Dom José Antônio, abriu e encerrou o processo local de beatificação e canonização, remetendo-o a Roma, onde há mais de dez anos se encontra a causa debeatificação do salesiano Dom Antônio de Almeida Lustosa, conhecido como o “bispo brasileiro da justiça social”. Homem que viveu intimamente unido a Deus, sempre preocupado com o bem-estar das pessoas. Foi pai e amigo de todos, especialmente dos empobrecidos do seu tempo, praticando a caridade, no seu modo simples e santo de viver, até seus últimos dias de vida.
Resta para nós, povo de Deus rezar e divulgar a vida e a missão do amado Servo Dom Lustosa, que foi fiel a Deus em tudo e tinha como lema: “Sub umbra alarum tuarum”, referindo-se ao salmo l7: “Guardai-me como a pupila dos olhos, esconde-me à sombra de tuas asas, longe dos ímpios que me oprimem, dos inimigos mortais que me cercam”.
Dom Lustosa, ao assumir seu múnus de bispo e pastor da Arquidiocese de Fortaleza disse: “Continuarei aqui simplesmente a trabalhar pelo Pai Nosso: Santificado seja o Vosso nome! Venha a nós o Vosso Reino, o programa de um bispo é sempre o mesmo: cumprir o seu dever”. “Dignai-vos SENHOR, aceitar a caminha da do nosso Dom Lustosa rumo ao altar. Ele que em vida soube ser vosso servo (...).